Aristóteles — Retórica das Paixões

Do caráter do orador e das paixões do ouvinte

A retórica, técnica ou arte de convencer o interlocutor através da oratória, tem como fim um julgamento, sendo necessário não só atentar para que o discurso seja demonstrativo de fé, mas também a si próprio e ao juíz em certas disposições. A aparência do orador é muito útil para as resoluções dos casos, enquanto que para os ouvintes o que importa mais é o processo.

Para as pessoas que amam, as coisas são diferentes do que para aquelas que odeiam, ou das dominadas pela cólera das que são tranquilas, ou são diferentes, ou a importância que é dada é diferente. Se há uma pessoa sob julgamento, para aquela que ama o delito foi de pouca importância, enquanto aquela que odeia pensa o contrário. Da mesma forma quem tem esperança e aspira por momentos melhores é provável que isso aconteça, enquanto que quem é indiferente, descontente também viverão momentos descontentes, indiferentes.

O bom orador precisa ser prudente, virtuoso e benevolente para ganhar a confiança dos seus ouvintes

AS PAIXÕES

A paixão é aquele sentimento que causa mudança nas pessoas, seguida de tristeza e prazer, além de outras sensações.

A paixão da cólera

Desejo acompanhado de tristeza, de vingar-se, de desprezar determinada pessoa. O colérico se irrita sempre com um indivíduo particular. Em toda cólera há um certo prazer, que vem da esperança de vingar-se. O colérico passa o tempo vingando em pensamento, imaginando o prazer da vingança como num sonho. Desprezam como forma de desconsideração, daquilo que é indigno, insiguinificante. Usam do desdém, da difamação e do ultraje. Ora, só desprezamos aquilo que não tem valor algum. Quem desdenha, despreza. Quem difama quer tirar proveito de tudo, enquanto que o difamado não pode aproveitar nada. E quem ultraja sente prazer ao pensarem que , ao fazer o mal, aumentam sua superioridade sobre os ultrajados.

A cólera é proveniente do desgosto. Um doente irrita-se com aqueles que desprezam sua doença. O apaixonado com os que desprezam o seu amor. Toda cólera se segue certo prazer, proveniente da esperança de vingar-se.

A paixão da calma

Estar calmo é o contrário de estar encolerizado, e a cólera se contrapõe à calma. Portanto a calma é a inibição e o apaziguamento da cólera.

Somos calmos diante dos que reconhecem seus erros e se arrependem, com os que se humilham diante de nós e com os que parecem ser inferiores, com os que se comportam seriamente com quem é sério, com os que fizeram favores, com os humildes, com os que não são insolentes em geral com situações contrárias a cólera. As pessoas são calmas no riso, na festa, num dia feliz, na ausência da dor… Ou com pessoas temíveis, dignas de respeito, benfeitoras, com quem agem contra sua vontade, ou as arrependidas. Somos calmos com quem é justo.

A paixão do amor e do ódio

Amar ou querer para alguém o que se julga bom, o ser capaz de realizá-lo na medida do possível.

Quando acontece o que queremos ficamos satisfeitos, se acontece algo contrário angustiamos por essas não serem as nossas vontades.

Amamos: os que têm os mesmos desejos que nós, os que fizeram favor, os que cremos que amam os que amamos, os que odeiam os que odiamos. Os dispostos a fazer benefícios, sensatos, os que louvam as qualidades que possuímos, os limpos de aparência, os que não censuram nossos erros, os que não guardam rancor. Os que não dão maldizentes e os que admiramos os que nos assemelham, a menos que nos incomodem e provoquem espírito de competição, mas não da inveja. O ódio é o rancor, o contrário do amor, as causas do ódio são ultraje, calúnia, surge sem nenhuma ligação pessoal e se diferencia da cólera, pois o ódio quer fazer o mal, não sente compaixão, quer que o outro desapareça.

A paixão do temor e da confiança

Temor: desgosto, preocupação com um mal eminente, danoso ou penoso. Não tememos o que está distante, como a morte. São temíveis coisas que podem causar danos e desgostos, o temível parece estar próximo, indícios do ódio, cólera de pessoas que podem fazer algum mal. Se temem os que fizeram injustiça ou que sofreram injustiça, os rivais. Os que atacam os mais fracos, os temíveis para os mais fortes. Não tememos os que crêem que não sofrerão, nem os que tem poder, nem quem julgamos que não causariam algum mal, nem o momento que poderia acontecer algo, quem teme tem esperança de salvar-se. A confiança é o contrário do temível, os que inspiram a confiança e aproximação da esperança. São confiantes os que tiveram resultados felizes, os que escaparam de situações perigosas. Sentimos confiança quando não tememos nossos semelhantes.

A cólera inspira confiança.

A paixão da vergonha e da imprudência  

Seja vergonha, certa tristeza ou perturbação, com respeito aos vícios presentes, passados ou futuros, que parecem levar a desonra, a impudência, certo desdém e indiferença por esses mesmos defeitos.

Se sente vergonha diante das faltas que parecem vergonhosas, seja conosco ou com quem nos preocupamos. Ex: covardia, iniqüidade, inconveniência, tirar proveito das coisas de pessoas indefesas, cobiça, avareza… Sentimos vergonha diante dos que sempre estarão presentes e dos que prestam atenção em nós, por que fazemos o mesmo com os outros. Não sentimos vergonha nem diante daqueles cuja opinião relativamente a verdade menosprezamos.

            E não só de atos mais também de sinais vergonhosos. Quando devemos ser vistos pelo público somos mais sujeitos às vergonhas. Mas existem pessoas que não se envergonham: os impudentes, a impudência é contrária a vergonha.

A paixão do favor

É o serviço pelo qual, diz-se, aquele que possui, concede ao que tem necessidade. Quer dizer, presta o serviço a quem necessita, ele se torna maior quando a necessidade é maior e os que prestam esse serviço são acolhidos e considerados. É possível anular o favor e dispensar o sentimento de gratidão: ou porque se presta ou se prestou serviço no interesse próprio ou porque ocorreu por acaso, ou porque as pessoas foram forçadas, ou porque devolveram, mas não deram, foi uma troca, se sorte, que assim não poderia ser favor.

O favor pode ser examinado pelas categorias: quantidade, qualidade, lugar e tempo. Só é visto como favor se for algo de grande importância. Ninguém reconhece ter necessidade de coisas sem valor.

A paixão da compaixão

A compaixão, certo pesar por um mal que se mostra destrutivo ou penoso, e atinge quem não o merece. Mal que poderia esperar sofrer a própria pessoa ou um dos seus parentes, e isso quando esse mal parece iminente, com efeito. É evidentemente necessário que aquele que vai sentir compaixão esteja em tal situação que creia poder sofrer algum mal, ou ele próprio ou um dos seus parentes, e um mal tal como foi dito na definição, ou semelhante ou quase igual; não sentem compaixão os que estão completamente perdidos.

Mal que se mostra destrutivo ou penoso, atinge quem não merece, as pessoas que tem esse sentimento esperam que elas ou um dos seus parentes possam sofrer esse tipo de mal; isso se for eminente. Não sente compaixão: os que estão completamente perdidos, os que se julgam extremamente felizes, os velhos, os fracos, tímidos, homens instruídos, os que não estão no estado de paixão. Os que sentem grande temor não têm compaixão. As seguintes coisas são dignas de compaixão: as destrutivas, males graves, dolorosos, mortes, ultrajes corporais, maus tratos, velhice, doenças, fome e outros. Temos compaixão de pessoas semelhantes a nós pelo fato de poder acontecer o mesmo conosco. O imerecido.

A paixão da inveja

As pessoas sentem inveja das que são semelhantes, em nascimento, parentesco, idade, hábitos, reputação e bens. Por causa dos interesses pessoais de cada um. Os invejosos são pessoas que faltam pouco para possuir tudo, os que fazem grandes coisas, os felizes, os ambiciosos. Os sábios (os que se julgam). Os objetos de inveja são os bens, fama, consideração e glória ou o que vai nos tornar superior.

Invejamos os que estão próximos, pelo tempo, lugar, idade, fama e nascimento, não invejamos mortos, nem quem consideramos inferiores ou muito superiores ou quem está em condições análogas.

A paixão da emulação e do desprezo   

A emulação seja certo pesar pela presença manifesta de bens valiosos que nos é possível adquirir, sentido com respeito aos que são por natureza nossos semelhantes, não porque esses bens pertencem a um outro, mas porque não nos pertencem também. São inclinados a emulação os que se julgam dignos de bens que não possuem.

A emulação é contrária ao desprezo, e desprezar é contrário a emulação. Os que num estado de ânimo que os faz invejar a outros ou ser invejados, tendem a desprezar todas as pessoas e todos os objetos que apresentam os males contrários aos bens dignos de inveja, as pessoas que agem pela emulação procuram obter bens e se acham dignos de bens que não possuem. Com a riqueza, muitos amigos, cargos públicos e todos os bens análogos.

São invejáveis os bens honrosos, forçosamente as virtudes são também invejáveis, assim como tudo o que é útil e benéfico para os outros, porque se honram os benfeitores e os bons. Também são invejáveis todos os bens de que frui o próximo.

Essas são dignas de inveja e os seus bens: coragem, sabedoria e autoridade. O fato de sentir emulação é o contrário de desprezar.

 

 

About these ads

Deixe um comentário

Arquivado em Disciplinas, Filosofia I

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s