A neurose e os mecanismos de defesa na abordagem Gestaltica

Mecanismos defesa

O presente trabalho tem como objetivo conhecer mais sobre os mecanismos neuróticos, suas formas clássicas e algumas atitudes terapêuticas utilizadas no tratamento do cliente com a abordagem gestaltica.

Este estudo foi desenvolvido para a aquisição e consolidação de conhecimentos sobre os mecanismos de defesa, especificando esta abordagem psicológica que considera o individuo uma função do campo organismo/meio e que considera seu comportamento como um reflexo de sua ligação dentro deste campo, dá coerência à concepção do homem tanto como individuo quanto como ser social.

2. MECANISMOS NEURÓTICOS 

2.1 Sobre a neurose 

A neurose está vinculada ao acúmulo de “gestalts inacabadas”, de necessidades não satisfeitas, cuja a satisfação foi prematuramente interrompida, ou seja, repetidas dificuldades de ajustamento entre o organismo e seu meio. Quando o indivíduo se torna incapaz de alterar suas técnicas de manipulação e interação com o meio. O ajustamento criador do comportamento não está de acordo com a necessária hierarquia das necessidades. As respostas não são atualizadas. A neurose é um conjunto de respostas obsoletas ou anacrônicas, em geral enrijecidas numa estrutura de caráter, que reproduz comportamentos adquiridos em outros tempos e em outros lugares.

Os mecanismos neuróticos se opõem ao livre desenrolar do ciclo de contato ou ciclo de satisfação das necessidades e são numerosas as Gestalts inacabadas, os ciclos interrompidos por perturbações de origem interna ou externas ao sujeito que não permite o desabrochar do self. Esses mecanismos de defesa ou de evitação do contato podem ser saudáveis ou patológicos, conforme sua intensidade, maleabilidade e oportunidade. Os quatro principais são: Confluência, Introjeção, Projeção e Retroflexão. Cada um implica em princípio, uma estratégia terapêutica especifica, constitui uma preocupação essencial para o praticante da Gestalt, pois ela ao contrário de outras terapias não visa atacar, vencer ou superar essas resistências, mas torná-las conscientes e adaptá-las a realidade. O terapeuta busca patenteá-las a fim de torná-las explicitas. Essas resistências podem ser normais e necessárias ao equilíbrio psicossocial, e muitas vezes são apenas uma reação saudável de adaptação, pois somente sua exacerbação e sua cristalização em momentos impróprios constituem um comportamento neurótico.

A Confluência está na relação das principais resistências clássicas, neste caso ocorre a diminuição do self, abolição da fronteira entre o individuo e seu meio. O individuo sente que ele e o seu meio são um, ele está em confluência com este meio. Os recém-nascidos vivem em confluência, não possuem o sentido de distinção entre dentro e fora, entre si e o outro. Em alguns momentos os adultos também se sentem confluentes com o que os cercam, sente-se totalmente identificado com algum grupo que participa, com identificação, sente-se m êxtase. A confluência se torna patológica quando este sentimento de completa identificação se torna crônico, e o indivíduo se torna incapaz de ver a diferença entre si mesmo e o outro. Não consegue discriminar entre o que ela é e o que as outras pessoas são. Não pode vivenciar a si mesmo porque perdeu todo o sentido de si próprio. A atitude terapêutica consistira em trabalhar nas fronteiras do self, no território de cada um com sua especificidade, com os limites temporais, com a fluidez das relações, alternância de contatos e rompimentos. Isso implicará um clima de confiança e de segurança suficiente, autorizando o confluente a se emancipar sem o temor de se sentir abandonado ou dissolvido. A confluência é seguida de retração, permitindo ao sujeito reconquistar sua fronteira de contato, reencontrar sua própria identidade, marcada pela singularidade e a diferença.

Uma das resistências clássicas que consistem em ´´engolir inteiro“ as idéias ou princípios dos outros sem que tenham sido digeridos e assimilados de modo pessoal, é a Introjeção. O individuo é alimentado psicologicamente, no entanto, crescemos se ao invés de engolirmos inteiro, mastigarmos e tirarmos do que nos é transmitido algo de positivo. Estas devem ser ingeridas e dominadas, se quiserem se tornar nossas de verdade, e nunca aceitar tudo o que é dito, sem crítica, baseados na palavra da outra pessoa. Todo alimento psicológico, tem que ser assimilado, desestruturado, analisado, separado e, de novo, reunido sob a forma que nos será mais valiosa. O tratamento terapêutico consiste em Gestalt, busca desenvolver independência do cliente e sua responsabilidade, sua assertividade e a capacidade de expressar livremente as emoções.

Outra forma clássica de resistência é a Projeção, que consiste em atribuir ao outro algo que nos concerne. É o contrário da Introjeção, enquanto esta tende a tornar o self responsável pelo que de fato cabe ao meio, a projeção tende a atribuir ao meio a responsabilidade por aquilo que tem origem no self. A Projeção é o mecanismo culturalmente do paranóico desconfiado que acusa a todo o seu meio da agressividade que ele mesmo projeta sobre os outros. A Projeção saudável é indispensável, ela que nos permite o contato com a compreensão do outro, a partir d momento que nos colocamos no lugar do outro. A atitude terapêutica pode ser facilitada num trabalho em grupo, pois geralmente o projetor exprime o sentimento ou sinais de precisos que ele se apóia para sua ´´constatação“. Os jogos como Monochama, permitem tais tomadas de consciência. Em certos mecanismos projetivos, a terapia individual alimenta a transferência, mas eles não são mantidos ou cultivados pelo terapeuta. Diferente de outras teorias, a Gestalt confronta a fantasia com a situação atual, o aqui e agora.

A Deflexão é uma das resistências ou perdas da função do Eu. Consiste em evitar o contato, desviando a sensação para a zona intermediária dos processos mentais, idéias, fantasias, ou devaneios, zona que não é nem a realidade exterior, nem a realidade do meu ser interno perceptível, pode ser assim uma fuga do aqui e agora, nas lembranças, projetos, considerações abstratas, no que Perls considerava masturbação mental (Mind Fucking).

A Retroflexão que significa literalmente, voltar-se rispidamente contra. O retroflexor sabe como traçar uma linha divisória entre ele e o mundo, e esta linha é nítida e clara, justamente no meio, mas no meio de si próprio. A terapia consiste em retificar as falsas identificações. Na terapia temos que ajudar o indivíduo a descobrir o que ele é e o que ele não é; o que o gratifica e o que o contraria. Temos que guiá-lo para a integração.

Há ainda a Proflexão que é uma combinação de Projeção com Retroflexão e também o egotismo que é uma hipertrofia do Ego, neste período o individuo se torna egocêntrico, sendo necessário passar por uma fase de recuperação narcísica durante a terapia para se encarregar de si mesmo e conquistar sua auto-suficiência. (self-support). A terapia busca restabelecer o neurótico oferecendo a capacidade de discriminar e buscar equilíbrio e compreensão de si mesmo em suas relações com o meio em que vive.

 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

É evidente que o relato aqui exposto, sobre os Mecânismos Neuróticos merecia ter sido mais aprofundado, mas, para o que foi proposto, já cumpriu sua finalidade, pois permitiu a assimilação dos principais conceitos teóricos e propiciou a reflexão sobre as práticas terapêuticas.
É fundamental destacar que o terapeuta dentro do processo terapêutico (que é o restabelecimento do si-mesmo pela integração das partes dissociadas da personalidade), deve trazer o paciente à integração verdadeira de si; de modo que este estabeleça um bom contato com o mundo e que veja a si mesmo como parte do campo total para relacionar-se tanto consigo quanto com o mundo. 

 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

GUIGER, Serge. Gestalt: Uma terapia do contato/ Serge Ginger e Anne Ginger; [tradução Sônia de Souza Rangel]- São Paulo. Sumus, 1995.

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1 comentário

Arquivado em Disciplinas, Humanismo

Uma resposta para “A neurose e os mecanismos de defesa na abordagem Gestaltica

  1. Achei muito bom, está bem explicado quais os mecanismos neuróticos e como cada um se desenvolve. Parabéns!!!

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