Natalie X

A dinâmica do desejo na histeria no filme Natalie X

natalie xO termo histeria foi amplamente estudado por Jean-Martin Charcot, um eminente neurologista tentando demonstrar que esse fenômeno podia manifestar reações físicas. Freud com base nos postulado por Charcot, fundamentou sua pesquisa na teoria da neurose que eram causadas por lembranças reprimidas de grande intensidade emocional.

No filme Natalie X, acompanhamos a trajetória de Catherine, uma mulher jovem, bonita, bem sucedida e que subitamente descobre estar sendo traída por seu marido Bernard com quem é casada há vinte e cinco anos. Ao questionar a Bernard de quem se tratava uma mensagem recebida pelo celular, foi informada de que não era ninguém em especial, só uma mulher sem importância com quem teria passado a noite. Inconformada, Catherine demonstra sua insatisfação, levando-a a descrer sobre sua feminilidade e ambos passam a culpar um ao outro pelo afastamento e monotonia do casamento. O desejo entre os dois não está despertado, há no casamento acomodação. Catherine resolve procurar uma prostituta, a quem vai dar o pseudônimo de Natalie, e a contrata para seduzir Bernard, descobrir suas fantasias, seu comportamento na cama. Mesmo se sacrificando, ela quer que Bernard seja satisfeito porque acredita ser incapaz de realizar as fantasias sexuais do marido. Ela coloca o marido como sendo o detentor do poder, posição importante de quem tem o falo, no caso o poder, porque ele é desejado por outra mulher. Sua vertente libidinosa vem à tona e Catherine encontra em Natalie um mecanismo para emanar seus desejos, o que ela fazia questão de ocultar. Isso fica bem claro em um momento que Catherine toma como posse um perfume igual ao de Natalie e quando pede a mesma bebida que Natalie dizia tomar junto a Bernard, simbolizando para o marido que ela também poderia ser desejável. A partir daí, surge uma triangulação amorosa, onde Natalie precisa seduzir Bernard para que Catherine conheça mais sobre os desejos do seu marido. Bernard, por sua vez, procura Catherine, mas a mesma está cada vez mais distante e aparentemente indiferente. Ao procurar Catherine para o sexo, Bernard se depara com uma mulher fria e cansada, característica da falta estrutural da histérica que reside exatamente no que ela mais deseja, pois a recusa do sexo sustenta seu desejo de insatisfação. A histérica preserva a falta, o desejo insatisfeito, sem o qual a estrutura da histeria não se sustenta. A histérica goza na falta mesmo que o preço a ser pago por esse gozo seja o desprazer de um desejo não satisfeito. No caso de Bernard, a condição do histérico é poder ter o falo para si e fazer com que este seja objeto de seu controle. Ele demonstra essa angústia pela perda quando desconfia da traição da mulher, demonstrando por essa situação. O histérico masculino diferentemente do feminino é sustentado por sua autoconfiança na virilidade. A partir do momento que a Catherine deixa supor que existe outra pessoa em sua vida que não é o Bernard, ele não se vê mais como objeto de desejo dela.

nathaliex02Natalie passa a narrar detalhadamente os seus encontros com Bernard para Catherine, que por sua vez, na tentativa de por a prova o que conhece sobre o marido, questiona e contesta por diversas vezes o que é dito, demonstrando mais uma expressiva cota de gozo da histeria pelo saber. Ao mesmo tempo em que busca informações sobre o que a afeta, desvaloriza esse saber. É como se nenhuma verdade imperasse por muito tempo, pois ela se recusa a acreditar. Ela sofre pela traição, e por acreditar não ser capaz de ser tão desejada como Natalie, mas há um gozo em Catherine, mesmo quando ela fica zangada e insegura em relação aos encontros de Bernard e Natalie, e ela passa a procurar Natalie diariamente, escutando a narrativa do encontro atentamente. Ela goza no jogo que faz ao não se relacionar com o marido, o que não significa que não haja libido, mas que é maior o gozo esquivando-se da relação sexual. Catherine quer reparar a própria falta engajando-se no ideal de perfeição da mulher ideal, neste caso Natalie, de modo a suprir-lhe essa falta. Catherine não persegue seu desejo com o marido, mas vislumbra um ideal, motivo pelo qual queixa-se continuamente e apresenta sempre justificativas para permanecer naquele lugar, o de esposa, de modo a manter sempre o outro idealizado.

Natalie e Catherine começam a se identificar, e se interessar pela vida uma da outra. Elas passam a se encontrar em locais mais íntimos como a casa da mãe de Catherine, ou na clínica onde ela trabalha. Na identificação com a outra mulher, Catherine fica mais confortável para delegar a outra um suposto saber sobre como ser mulher, o que a isenta da preservação de um saber que para a histérica é inconstante e sustenta a falta de sexualidade o que é de primordial importância no jogo histérico. A partir daí também surge a competição, quando Natalie sente o desejo de ser esposa e narra que Bernard quer morar com ela e Catherine discorda, pois sabe do amor que o marido sente por ela. Como Catherine tem grande dificuldade de se assumir como a mulher sensual, a triangulação amorosa no filme estabelecida, evidencia a identificação com Natalie, a outra mulher, a desejada.  Natalie percebe que Catherine gosta de ouvir detalhes sobre as relações sexuais com Bernard, passa a alimentar ainda mais a fantasia de Catherine. Na verdade, Catherine tem esses desejos e não o marido. Natalie incorpora um fetiche, o brilho da mulher desejável, o brilho fálico, mas gostaria de ser a esposa. O desejo de Catherine é despertado pelo aparecimento da outra desejando o marido Bernard. Catherine passa a se proteger da morte do desejo, e sofre ao perceber que o desejo do outro é mais aberto e que há um enigma que é saber o que o marido deseja na outra mulher. É uma identificação feminina, ao modo como Natalie faz um homem a desejar. Ambas passam a ser espelho uma da outra, onde elas buscam traços para se comportar, e isso fica bem claro quando Natalie trabalha num salão de beleza e Catherine resolve dançar e transar com um desconhecido em um local inusitado, anteriormente narrado por Natalie.

nathalie-x03Existe na trama uma complexidade familiar da relação entre a Catherine e sua mãe. Isso é algo comum no histérico visto que o amor materno é muito intenso buscando esse a representação daquilo que acredita ser o desejo da mãe.

A personagem Marlene embora a trama possa ter transmitido a mensagem de aproveitadora, aquela situação pode ser interpretada como forma de Natalie ser uma pessoa que não se prostitua e tem uma vida dentro dos padrões de moral social como pessoa. Em determinados momentos a Natalie é quem toma conta da cena sublimando a vida da Marlene.

*Texto desenvolvido em equipe e apresentado na disciplina de psicopatologias psicanalíticas.  

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