Arquivo do mês: maio 2011

Possibilidades do envelhecer

 

Google Imagens

Envelhecer pode ser aos vinte, não exatamente aos setenta. Conheço pessoas de vinte anos que estão estagnadas na vida, sem sonhos, sem planos, rendidas ao fracasso, sem vontade de ir além. Envelhecer pode ser a qualquer momento, em qualquer idade, afinal cada dia a mais é um dia a menos na vida. E isso é fato. Envelhecer faz parte do ciclo que se completa, é também poder olhar pra trás e perceber o quanto se caminhou nesta vida e se orgulhar desta caminhada. Se orgulhar por tudo o que construiu, por tudo o que conquistou. E se sentir completo. Perceber que ainda não acabou, e tem muitos caminhos para seguir.  

Envelhecer pode ser o ápice da vida, com sentimento de missão comprida e gostinho de quero mais. Mais tempo pra passear, ler aqueles livros que estão há décadas na estante, curtir encontros com os amigos de longas datas.

Envelhecer é nascer novamente, mesmo que o corpo já não seja tão resistente, mas com uma rotina de exercícios diários, com certeza o bem estar físico vai se tornar presente. As limitações são naturais, mas a ausência de saúde não precisa estar veiculada a idade.

Envelhecer faz parte da vida, observe bem, da VIDA. Então, por que fazer do envelhecimento uma antecipação da morte? Sim, porque envelhecer também pode ser sinônimo de morrer. Não falo da morte física não, porque esta pode chegar em qualquer idade, me refiro em morrer pro que a vida tem de melhor, transformação. Morrer por não se permitir viver esta fase tão cheia de particularidades, por não querer vivenciar todos os momentos que esta idade pode proporcionar.

Envelhecer, neste caso, é também escolher de que forma encarar o envelhecimento. No dicionário, velho é sinônimo de ultrapassado, antiquado, antigo, desusado, o que comumente não se usa mais. Porém na gíria popular pode qualificar companheiro, amigo. Duas representações para uma mesma palavra. Duas possibilidades para uma vida. Dois caminhos possíveis e diferentes. Aceitar a velhice como uma transformação natural é primordial para ser feliz. E o que encontramos hoje, são idosos buscando vitalidade, cuidando dos seus corpos, se preparando para continuar na maratona da vida, respeitando os seus limites e com vontade de ir além.

2 Comentários

Arquivado em Textos

A adoção dos conceitos de normalidade e de adaptação implica também um conceito pré-formado da realidade

 

Google Imagens

Na atualidade, Pathos é conceituado como o radical que concebe doença na sua forma original, principalmente do ponto de vista psiquiátrico. No entanto, a conceituação de Pathos é bem mais abrangente, é pensado como algo inerente ao ser humano, que atravessa toda a dimensão humana. Ao adotar os conceitos de realidade como sendo o da realidade comum compartilhada, colocando como regras as noções de adaptação e normalidade, estaremos colocando tudo o que foge a norma como uma alteração da realidade com cunho pejorativo, como anormal, ou como loucura. Segundo Foucault, os modos de expressão da loucura diferem e são aceitos segundo a cultura e o período histórico, determinado em função das normas sociais. Vários personagens históricos foram caracterizados como loucos devido as suas atitudes incomuns perante a sociedade. Alguns por quererem mudar a realidade, muitas vezes social, não se tratando de alteração da realidade no sentido de loucura. A radicalidade de suas atitudes, muitas vezes desafiadoras, em busca dos objetivos considerados impossíveis pelo resto da sociedade. Imaginem Francisco de Assis, hoje considerado pelos religiosos como um santo, mas que usou de toda sua radicalidade ao sair peregrinando pelas ruas, largando a família e todo o dinheiro que tinha para se juntar aos pobres e doentes excluídos pela sociedade, com o objetivo de servir ao seu Deus. Este Francisco foi considerado um louco na época. Considerar um homem como louco somente pelo modo de se comportar é reduzir demais a psicopatologia e o homem.

A psicopatologia não pode ser vista somente com o olhar da psiquiatria, mas também como pathica, sem esquecer a perspectiva histórica da doença mental descrita por Foucault, afinal muitas vezes a pessoa se torna louca pela forma que a cultura prevê.

É certo que uma patologia não terá somente uma origem. Não devemos qualificá-la como sendo de origem endógena, pois manteríamos a idéia objetivista do ser humano, reduzindo-o biológico. Pensar que o ser humano tem uma pré-disposição em adquirir alguma psicopatologia de origem endógena, como algo somático que pode ser medicado.  Atualmente os consultórios médicos estão cheios de pessoas que foram diagnosticadas como depressivas ou ansiosas e precisam de medicação para que os hormônios responsáveis pelo bem estar dessas pessoas sejam normalizados. As psicopatologias estão, nestes casos, associadas as taxas hormonais, sem levar em conta a vida social, política, cultural destas pessoas. Assim como não podem ser apenas de origem endógena, o mesmo vale para a questão cultural e situacional que atravessa o endógeno e o cultural. É importante a dimensão orgânica e psíquica como um todo, evitando o dualismo predominante, pois mesmo o genético está associado à mundanidade. Para Binswanger a psicopatologia extrapola o puramente biológico, psicológico ou cultural. O homem precisa estar em equilíbrio com o mundo, determinado por ele como Umwelt (mundo físico e biológico), Mitwelt (mundo social, como a família e os amigos) e o Eingenwelt (mundo pessoal, corpo). A partir do equilíbrio destas três dimensões o homem poderá viver uma existência autêntica.

Os desvios da realidade que são colocados como o anormal e, muitas vezes, a expressão de doença mental, rompem com a idéia de que o homem é um ser livre, um ser-no-mundo, composto de pathos. Aqui qualificado como tudo o que diz respeito ao homem, que atravessa a dimensão humana. Paixão, sofrimento, estariam ligados a uma dis-posição que antecede o querer e o conhecer. Essa disposição torna-se muitas vezes o elemento motor, o sopro da vida de toda uma existência.

Deixe um comentário

Arquivado em Disciplinas, Psicopatologia fenomenológica, Textos