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AMOR E ÓDIO – A AMBIVALÊNCIA DA MÃE

O real do ódio é o impossível da fusão

No texto Amor e ódio – A ambivalência da Mãe, a autora nos apresenta a figura da mãe e a representação do “ódio” sentido pela mesma. As revelações em relação a dimensão imaginária, não simbólica, que o ódio pode constituir. A loucura de um gozo materno que o parto obriga a mulher a atravessar, pois quando o corpo sai do corpo o real aparece. Deste modo, dar a vida supõe um luto não apenas da criança no útero, mas também daquela que acaba de nascer. Ter um filho é justamente não mais o ter. Da impossibilidade da fusão mãe/filho, acontece um ódio imaginário que adianta-se ao amor. Da necessária desfusão, do reconhecimento num retorno ao feminino subsistirá o “ódio suficientemente bom”, simbólico. Mãe e filho têm de iniciar logo o luto de um e de outro. Para cada um, o objeto está para sempre perdido. Inicialmente, a criança não tem o objeto, ela é o objeto, e, no caso, perdido. Progressivamente a ilusão que acomete a mãe e o filho de serem um só, se perde e prepara a criança para a “capacidade de estar só”.

O outro traumatismo do nascimento: o parto.

A violência a qual é submetida as mulheres quando dão a luz uma criança pode ser a origem do ódio, que supõe-se atravessar todo o amor materno. O ódio evoluirá no registro imaginário se no fantasma materno o lugar da criança corresponder ao do objeto parcial, de posse e até mesmo do objeto real, que viria negar aquilo que foi identificado como uma perda, ou preenchimento do vazio evocado pelas mães em sofrimento. Nessa confusão, a criança permanece como um objeto real no fantasma materno. Dito de outro modo, em vez de ser revelada uma necessária perda interior, uma relação continua a ser estabelecida um amor fundado no gozo que visa, finalmente para a criança dominar aquilo de que a mãe é objeto submetido. O ódio simbólico é então aquele que possibilita a mãe elaborar, não mais a perda do real, mas a falta estrutural. Se a relação do sujeito com a mãe for a fonte da sua existência, acrescentamos que a relação mãe/filho pode ser o elemento que vem autenticar sua própria existência. Se a mãe é portadora da identidade em formação do bebê, ele pode conferir uma identidade à sua mãe como narcisante.

O fenômeno da castração é um lugar em que se apóiam a operação simbólica e humanizadora, a operação que consiste em privar a pulsão da satisfação imediata com o objeto visado pode tomar a via da sublimação, mas também do recalque neurótico, ou até mesmo a via perversa. Uma criança que para poder separar-se do corpo a corpo com a mãe, deve antes de tudo, ter estado ali para não ter que passar por uma regressão no momento em que esta operação se faz necessária.

Se a castração vem da privação ao mesmo tempo real e simbólica que atinge um objeto até então erotizado e repentino acesso proibido, a criança pode representar tal objeto para a mãe.

Castrações Maternas

Se a questão psíquica do parto é vivida apenas como perda real, privação, o ato de parir “passagem ao ato” corre o risco de nunca tornar-se “dar a luz”, isto é, momento simbólico, fonte de vitalidade para o narcisismo materno. Do ponto de vista materno, a placenta é perdida para a mãe e para o bebê, o corte umbilical está para os dois.

No desmame a criança fica privada do seio, e o seio fica privado da criança. Para a criança corresponde a separação de uma parte de si mesma que se alojava no corpo da mãe que, por sua vez, sente uma separação do objeto filho ainda investido como parte dela mesma. O benefício simbólico à criança é que assim separada do vital materno, ela possa voltar-se para outrem.

O acesso ao estado anal tem o valor de uma nova separação para a criança e parece corresponder para a mãe a um segundo desmame. Confirma o fato que para sobreviver a criança não precisa de exclusividade do seu poder materno. Na medida que a criança perde uma mãe que faz tudo, a mãe perde uma criança que precisa dela para tudo. Assim, falta a dependência materna e se humaniza o desejo numa sucessão de perdas e reencontros sobre a falta. Não se vive mais para o outro e sim, com o outro.

O ódio inscreve sua marca na dinâmica simbólico-real fazendo com que a desprivação real seja um ganho de originalidade compensatória e construtiva. A “mãe suficientemente cheia de ódio” faz laço na partilha entre a mulher e a mãe, entre a ama e a mãe. “Suficientemente” implica que o ódio seja necessário para toda separação. Para odiá-lo é preciso que antes tenhamos amado, e para separar-se é preciso que apesar desse amor, possamos odiá-lo.

Psicogênese da mãe

Suponhamos que uma criança carregada nove meses tenha se revestido dos aspectos de objeto interior essencial para o corpo da mãe. Os investimentos da mãe devem passar desse objeto interior que favorecia um certo retraimento narcísico, uma certa gratificação narcísica para um objeto exterior novo. O conceito de “desinvestimento materno” corresponde ao tempo em que o desejo da mãe, para sua satisfação, tem como objetivo um outro objeto além da criança. O que vai possibilitar a mãe emergir dessa unidade é a “castração umbilical”, e a atualidade de suas relações sexuais. Desinvestir a criança não pode ser confundido com abandono, nem como ausência do olhar, mas com um outro olhar para ela e para o que ela representa.

A primeira relação objetal com a criança funda-se num modo regressivo induzido pela preocupação materna primária, no modelo edípico no qual está enodada a primeira relação da mãe com a sua própria mãe. Do mesmo modo que a criança elabora a ausência da mãe, a mãe suportará a ausência do seu bebê, assim sendo, ninguém completou ninguém porque um pode sobreviver a ausência do outro. E se ninguém é completado, a mãe ainda precisa encontrar sexualmente o “pai” e acriança desinvestida terá que estabelecer outras relações objetais. Esse processo não ocorre sem desordens, e é por isso que deve ser “resolvido” num conflito, o Édipo propriamente dito.

Édipo

Se mãe e filho saíram ilesos dessas crises, eis aí um bebê ao qual o desenvestimento materno conferiu autonomia de funcionamento: a que autoriza a pulsão a encontrar satisfação na ausência da mãe. Mudando de objeto libidinal, a mãe retoma uma posição genital. Se ao passo da criança ser autônoma, ela continua na dependência da mãe, e a mãe na dependência dessa dependência o campo abre às manifestações psicopatológicas. A primeira relação, tanto para o menino quanto para a menina, estabeleceu-se com a mãe. A evolução dos primeiros tempos dessa relação nos convida a só considerar como edípica a articulação das pulsões arcaicas naquilo que foi sublimado com o desejo sexual genital. Ambos estão numa luta contra o terror da transgressão do interdito incesto. Trata-se do equilíbrio sempre frágil em torno da problemática da ambivalência e da separação, campos nas quais a ambivalência da criança reflete e repete para a mãe a ambivalência em relação à sua própria mãe.

Latência

Latência corresponde como um dos estágios do desenvolvimento afetivo da criança. Corresponde ao período social e de socialização representado pela escola e pelo tempo de aprendizagens para a criança. A entrada na escola assina socialmente a separação da mãe e da criança, trazendo a intervenção de um terceiro separador real ou imaginário, entre o sujeito e o objeto. Para que a escola se inscrever nessa dimensão separadora da mãe e da criança, é preciso que este papel e esta função tenham sido reservados ao “pai” simbólico, como a metáfora estruturante da linguagem e do pensamento.

As dificuldades encontradas pela criança na fase da latência, põem estar relacionadas a falha da mãe em sua função continente e libidinizante e a do pai em sua função separadora e estruturante da personalidade.

Puberdade e adolescência

Aqui, no início da adolescência, a criança tornada púbere, perseguindo sua busca do gozo esperado e jamais atingido, irá se voltar para seus pares, ou seja, aqueles que tiveram que renunciar aos gozo, que tiveram a mesma castração e a mesma falta. O Édipo pubertário convoca novamente mãe e filho a repensar suas possibilidades subjetivas de enunciação desse desejo. Como continuar sendo mãe de um filho em relação ao qual não mais se pode evitar reconhecer que é sexuado, capaz por sua vez de procriar? Cada vez mais semelhantes. A mãe, a quem a evolução pubertária do filho fragiliza inevitavelmente, deve atestar sólidas defesas narcísicas se não quiser sofrer um profundo ferimento. É preciso que haja renúncia para que tenhamos um final feliz. Se apesar de tudo a mãe continua a amar, proteger o filho, a criança pode ir, tronar-se uma mulher, ou um homem não muito carregados de remorso.

Pai

Se não é necessário que haja um homem para que haja um pai. Não poderia haver mãe sem pai. O mito freudiano funda a função paterna de Lacan como simbólica e estruturante, mesmo na ausência de qualquer pai real, e como vetor de uma lei universal na origem da separação mãe/filho. É o pai que ocupa o desejo da mãe quando esta não está presente, se ela vai é porque o filho não a preenche. O pai aqui é visto, como aquele que priva a criança de possuir a mãe só para si.

O pai se revela como função terceira que vem separar, organizar o mundo como tal, e dar a criança o sentido de realidade, em oposição àquilo que, do corpo no corpo, foi atravessado na experiência da maternidade.

Referências Bibliográficas

BENHAIM, Michèle. Amor e ódio, a ambivalência da mãe. Pág. 17 a 38. Rio de Janeiro: Companhia de Freud Editora, 2007.

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Brincar – Um campo de subjetivação na infância

diversãoA CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE INFÂNCIA

No livro Brincar – Um campo de subjetivação na infância, a professora e psicomotricista Cláudia Jardim, escreve sobre a importância do brincar no desenvolvimento infantil, contando fatos históricos do universo da criança a partir do século XII até o século XIX, utilizando-se de referenciais teóricos como o historiador francês Philippe Ariès, Rosseau, Foucault, entre outros.

Philippe Ariès (1978) destaca duas teses em sua pesquisa na construção do conceito de infância: a primeira afirma que não havia sentimento de infância na Idade Média, ou seja, não havia consciência da particularidade infantil que distingue a criança de um adulto. Logo que a criança tinha condições de viver sem a dependência constante da sua mãe ou da sua ama, ela passava a participar do grupo dos adultos, a partir daí, os seus valores e conhecimentos não eram assegurados ou controlados pela família. A segunda tese apresenta a família e a criança ocupando lugar central nas sociedades industriais.

Em relação a arte medieval do século XII, Ariès chama a atenção para ausência de arte envolvendo as crianças, e isso não acontecia por falta de habilidades para a criação desses trabalhos, mas porque não havia lugar para a infância nesse mundo. Até o século XVII a criança era vista como um adulto em miniatura e tratada com certo descaso, como se fosse um bichinho de estimação, oscilava entre o mundo animal e o dos adultos. No século XIII nas raras representações artísticas, eram representados por adultos com tamanho reduzidos, nunca por crianças com expressões bem particulares. Nos séculos XV surgiram mais representações da infância. O putto que era a criança nua, vista nas esculturas, e o retrato, que não era colocado em seu próprio túmulo ou no de seus pais, mas sim no de seus professores, a criança agora era representada por ela mesma, uma nova sensibilidade atribuiu as crianças, seres frágeis e ameaçados, uma particularidade que ninguém se importava em conhecer. Nos séculos XVII os retratos de família passam a privilegiar a criança, e as pinturas, mesmo que não contemplassem a um tema infantil, utilizavam as crianças como suas protagonistas, principais ou secundárias. E essa particularidade infantil, não parou por aí, avançou nos demais séculos buscando sua especificidade cada vez mais refinada, até a atualidade.

O texto fala das mudanças ocorridas nos hábitos de brincar na sociedade medieval tendo como modelo o futuro Luis XIII, pelas anotações do diário do médico dele, Héroard. A partir das anotações dele, podemos conhecer um pouco das principais brincadeiras e atividades do pequeno, e nos ajuda a compreender como era a vida das outras crianças, já que todas elas, bastardas ou legítimas recebiam o mesmo tratamento de todas as outras crianças nobres. No século XVIII o movimento da particularização da infância avança e ganha forças, com o romantismo a família sofre mudanças, e a criança passa a ser valorizada ocupando um lugar de destaque no interior da família. Passam a cultivar as maneiras próprias do agir da criança, e as qualidades características da sua idade. A infância como graça, amabilidade, a “bondade natural” do ser humano.

 Rousseau, na sua obra Emílio ou da educação enfatiza o homem natural, o individualismo, a liberdade, o trabalho útil à sociedade. Demonstra como se deve proceder para atingir o objetivo de fazer da criança um bom adulto. Já que defende o homem como nascido com a bondade natural. Para evitar que a criança se torne má, ela deve ser protegida da sociedade, traçando um caminho que a leva a felicidade comprometida pela ordem social.

Aponta ainda que a educação dever ser progressiva, de acordo com o desenvolvimento, devendo ser adaptado as necessidades individuais, ou seja, as diferenças individuais devem ser respeitadas. Cria uma teoria de desenvolvimento, baseando-se na idéia da bondade original, tece um projeto pedagógico no qual a criança passa a ser encarada como um ser em desenvolvimento, rompendo com a idéia de adulto em miniatura. Não é mais vista como animal, nem homem, e sim como criança mesmo. Com sua obra constrói um cenário onde a criança é o personagem principal com sua condição inocente e bondosa. Uma criança imaginária, bondosa, solitária e feliz. Repleto de sentimentos de bondade e humanidade. Qualidades que para Rousseau só seria possível com a criança longe das faculdades humanas. Esse sonho de Rousseau, esse paraíso, contribui para engrandecer e marcar a infância, causa um movimento de retração, um adiamento no movimento de autonomia da criança. A partir de Freud, no final do século XIX, as crianças perderam a inocência que haviam ganho do Cristianismo e de Rousseau. Foi dado ênfase ao papel desempenhado na sexualidade pelo fator infantil.

Do público ao privado – a infância recolocada

Segundo Ariès, a mudança da concepção e infância foi compreendida como sendo eco da própria mudança nas formas de organização da sociedade, das relações de trabalho. Portanto, não se trata de estudar a criança como problema em si, mas compreendê-la segundo perspectiva histórica. Para Foucault (1984), o ser se constrói historicamente como experiência, isto é, como podendo e devendo ser pensado. Ele entende experiência como correlação, numa cultura, entre campos de saber, tipos de normatividade e formas de subjetividade.

O conceito de infância evidencia-se pelo novo valor do amor familiar. A criança passa a ser cuidada pela família, e também pela escola. Há uma sutil rejeição da criança ao mesmo tempo em que ela é reconhecida como categoria social de grande importância. Cada vez mais encontraremos na contemporaneidade esse sujeito, entregue a especialistas. Na realidade quando nos mostramos preocupados em compreender a criança de hoje, sua relação com o consumo e as transformações que estas experiências acarretam no psiquismo de cada pessoa, estamos na verdade nos interrogando a nós mesmos, adultos e crianças.

Devir – criança e subjetividade

Para a autora, a criança é mais que faculdades mentais, maturação ou escalas de desenvolvimento. Procuramos a singularidade e sua relação com a historicidade. Com a psicologia do desenvolvimento aprendemos teorias e conceitos ligados aos aspectos evolutivos ao longo de sua trajetória de vida.

Não nos tornamos adultos sem a multiplicidade, não nos bastam as características da criança para sermos criança, nem chegar na fase adulta para assim o ser. Para Kantz, inexiste um caminho prévio e determinado que a criança devesse seguir para tornar-se um adulto. O que percebemos hoje é um deslizamento por parte dos adultos em relação ao que é ser criança.

brincarEste livro concebe o brincar como uma dimensão de fundamental importância para a compreensão do devir-criança. “Brincar” e “infância” parecem lugares privilegiados para se pensar a subjetividade da criança, quando o interesse é, mais do que pesquisar a criança, pesquisar com a criança as experiências sociais e culturais que ela compartilha com outras pessoas do seu ambiente.
Muitas vezes o brincar é visto como um campo propício à elaboração do mal-estar infantil, mal-estar que os adultos ajudam a produzir. Cláudia Jardim mostra que no campo do brincar, os aspectos da subjetividade encontram-se com elementos da realidade externa e possibilitam uma experiência criativa na construção do eu social. Trata-se da possibilidade de viver um período de espaço e tempo protegido, simbólico e gratuito.

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