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A adoção dos conceitos de normalidade e de adaptação implica também um conceito pré-formado da realidade

 

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Na atualidade, Pathos é conceituado como o radical que concebe doença na sua forma original, principalmente do ponto de vista psiquiátrico. No entanto, a conceituação de Pathos é bem mais abrangente, é pensado como algo inerente ao ser humano, que atravessa toda a dimensão humana. Ao adotar os conceitos de realidade como sendo o da realidade comum compartilhada, colocando como regras as noções de adaptação e normalidade, estaremos colocando tudo o que foge a norma como uma alteração da realidade com cunho pejorativo, como anormal, ou como loucura. Segundo Foucault, os modos de expressão da loucura diferem e são aceitos segundo a cultura e o período histórico, determinado em função das normas sociais. Vários personagens históricos foram caracterizados como loucos devido as suas atitudes incomuns perante a sociedade. Alguns por quererem mudar a realidade, muitas vezes social, não se tratando de alteração da realidade no sentido de loucura. A radicalidade de suas atitudes, muitas vezes desafiadoras, em busca dos objetivos considerados impossíveis pelo resto da sociedade. Imaginem Francisco de Assis, hoje considerado pelos religiosos como um santo, mas que usou de toda sua radicalidade ao sair peregrinando pelas ruas, largando a família e todo o dinheiro que tinha para se juntar aos pobres e doentes excluídos pela sociedade, com o objetivo de servir ao seu Deus. Este Francisco foi considerado um louco na época. Considerar um homem como louco somente pelo modo de se comportar é reduzir demais a psicopatologia e o homem.

A psicopatologia não pode ser vista somente com o olhar da psiquiatria, mas também como pathica, sem esquecer a perspectiva histórica da doença mental descrita por Foucault, afinal muitas vezes a pessoa se torna louca pela forma que a cultura prevê.

É certo que uma patologia não terá somente uma origem. Não devemos qualificá-la como sendo de origem endógena, pois manteríamos a idéia objetivista do ser humano, reduzindo-o biológico. Pensar que o ser humano tem uma pré-disposição em adquirir alguma psicopatologia de origem endógena, como algo somático que pode ser medicado.  Atualmente os consultórios médicos estão cheios de pessoas que foram diagnosticadas como depressivas ou ansiosas e precisam de medicação para que os hormônios responsáveis pelo bem estar dessas pessoas sejam normalizados. As psicopatologias estão, nestes casos, associadas as taxas hormonais, sem levar em conta a vida social, política, cultural destas pessoas. Assim como não podem ser apenas de origem endógena, o mesmo vale para a questão cultural e situacional que atravessa o endógeno e o cultural. É importante a dimensão orgânica e psíquica como um todo, evitando o dualismo predominante, pois mesmo o genético está associado à mundanidade. Para Binswanger a psicopatologia extrapola o puramente biológico, psicológico ou cultural. O homem precisa estar em equilíbrio com o mundo, determinado por ele como Umwelt (mundo físico e biológico), Mitwelt (mundo social, como a família e os amigos) e o Eingenwelt (mundo pessoal, corpo). A partir do equilíbrio destas três dimensões o homem poderá viver uma existência autêntica.

Os desvios da realidade que são colocados como o anormal e, muitas vezes, a expressão de doença mental, rompem com a idéia de que o homem é um ser livre, um ser-no-mundo, composto de pathos. Aqui qualificado como tudo o que diz respeito ao homem, que atravessa a dimensão humana. Paixão, sofrimento, estariam ligados a uma dis-posição que antecede o querer e o conhecer. Essa disposição torna-se muitas vezes o elemento motor, o sopro da vida de toda uma existência.

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Dia do psicólogo

Olá queridos estudantes de psicologia e demais pessoas especiais que passam aqui pelo blog. Ontem tentei postar, sem sucesso, algo sobre o dia do psicólogo, infelizmente o wordpress estava congestionado, logo, não foi possível.

No entanto, mesmo com um dia de atraso, gostaria de parabenizar a todos os profissionais de psicologia pelo seu dia, e não só pela data, mas por seu trabalho que é desenvolvido com tanto afinco e que dia após dia ganha mais forças por colaborar de forma significativa com a qualidade de vida das pessoas. Seja com Rogers, Freud, Skinner ou outros tantos, a psicologia tem as ferramentas certas para atingir os seus principais objetivos, descrever, explicar, prever e quem sabe, modificar o comportamento humano, sempre considerando os aspectos biológicos, afetivos, cognitivos e sociais.

A você, que é estudante assim como eu, fica a dica do comprometimento que devemos ter com a nossa profissão, afinal, vamos lidar com o que existe de mais íntimo nas pessoas, sua subjetividade.

\o/ Parabéns pelo nosso dia, psicólogos em formação, também podem comemorar!

Vládia Almeida

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Sobre a morte e o morrer por Rubem Alves

Olá queridos, estive tão ausente do blog estes meses, muitas coisinhas pra fazer, trabalhos da faculdade, provinhas e uma série de outros compromissos que me deixaram impossibilitada de postar novidades.

Pra tentar compensar a ausência, trouxe um texto incrível do psicanalista Rubem Alves pra vocês. Espero que gostem. Voltarei a postar novamente, prometo que o estudandopsicologia voltará cheio de conteúdos novos pra vocês. Boa leitura, segue o texto.

Sobre a morte e o morrer

Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3 e retirado do site www.releituras.com

 

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Superação…

Estou meio ausente esses dias, muitos trabalhos, mas passei por aqui para deixar uma matéria que li na Revista Cláudia sobre mulheres que venceram a droga, a depressão, a prisão. Exemplos de superação! Aqui!

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Consumismo e Uso de Drogas

consumo conscienteEntendemos por consumismo o ato de comprar produtos sem consciência, e sem necessidade. Um problema contemporâneo já que todos os dias somos alvos fáceis da indústria do consumo que com a mídia e o marketing nos leva a pensar que seríamos pessoas diferentes se adquiríssemos determinado bem ou serviço. Vivemos numa sociedade consumista, onde sempre estamos insatisfeitos, em busca do corpo perfeito, da coleção nova da vitrine, do cabelo “da hora”, do jeans de determinada grife, do modelo novo do carro. E somos convencidos de que viveríamos mais felizes se consumíssemos tais produtos, já que o indivíduo sempre está em desvantagem em relação aos “super poderes” dos objetos ofertados, que além da felicidade, traz pertencimento e mobilidade social. O problema está em como adquirir tais produtos? Como manter essa ilusão de felicidade, já que ao adquirir um objeto, o desejo não é eliminado, é apenas transferido para outros objetos? O consumismo surge como meio de construção de identidades, em que quanto mais poder os objetos adquirem, mais o interior do indivíduo está esvaziado e exteriorizado, pois ele só se reconhece e se sente bem quando coberto por alguma marca.

Vivemos em um país com uma das piores distribuições de renda do mundo e com precárias condições de aquisição desses produtos.  Onde a identidade do povo é formada a partir de imposições e modelos culturais cultuado pela onipresença dos meios de comunicação de massa, e o sujeito é obrigado a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real que é pobre e fragmentária. Isso gera conseqüências ruins, porque o consumista é diferente do consumidor, que só compra o que é necessário, ele compra o que é supérfluo, muitas vezes movido por distúrbios psicológicos, sociais. O sujeito incapaz de trabalhar seus problemas e suas frustrações busca soluções que na realidade causarão mais um problema como o uso de drogas. Geralmente o primeiro contato feito com as drogas, é exatamente quando a pessoa está buscando sua identidade psicossocial. A medida que vai ficando dependente o sujeito passa a ver a droga como fundamental e esquecendo dos seus relacionamentos interpessoais. Da mesma forma que o consumidor, no caso, consumista, busca nos objetos uma forma de se manter sociável, e feliz, o usuário de drogas também busca um significado para a vida, no entanto a droga o impede de pensar nas suas frustrações já que encará-las pode ser também doloroso. No caso são usadas para bloquear esse sentimento, anestesiar, negar-se a si mesmo. Vale ressaltar que muitos casos de usuários de drogas, também começaram quando na verdade os seus desejos eram de consumir objetos, fora da sua realidade, como já comentado. E como alternativa passam a praticar atos ilícitos na intenção de conseguir esses objetos. Quanto as drogas legais como álcool, tabaco, também entram no mesmo viés do consumo, pois a mídia nos leva a pensar mais uma  vez que a felicidade se encontra no consumo desses produtos.

drogas

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