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Trabalhos do curso

ANGÚSTIA E EXISTENCIALISMO

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O termo “Angústia” tem sua origem do latim “Angustus” que significa “estreito, apertar, afogar”. Comumente, a angústia é entendida como um estado de aflição, de sofrimento. Experimentada por todos os homens, em todas as culturas, confunde-se com o desespero. Existem vários tipos de leitura acerca da angústia. Há a leitura psicológica, que a compreende segundo as manifestações clínicas e psicopatológicas, e busca atentar para os sintomas apresentados, no intuito de encontrar uma cura para o sofrimento causado, através de métodos que controlem os sintomas, removendo totalmente a angústia. O enfoque humanista sobre a angústia é construído a partir de uma visão filosófica. Dados os fundamentos humanistas da gestalt-terapia, considera-se necessário recorrer ao campo da filosofia para fundamentar a possibilidade de trabalhar uma visão existencial do conceito de angústia. Há a leitura ontológica que considera a angústia enquanto um fenômeno que atinge todo ser enquanto perda do fundamento pessoal da existência e, conseqüentemente, do sentido de vida, visa compreender a angústia enquanto inerente ao ser e, como tal não há o que se curar porque não há como remover a angústia do ser.

O Existencialismo como especulação filosófica visa a análise minuciosa da experiência humana em todos os seus aspectos teóricos e práticos, mas acima de tudo dos aspectos irracionais da vida humana. O existencialismo é uma corrente filosófica que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano. Considera cada homem como um ser único que é mestre dos seus atos e do seu destino. O existencialismo difere da filosofia tradicional e do homem, pois não acredita que possa existir vida sem sofrimento ou a felicidade eterna. Acredita que as agruras existenciais, dentre elas a angústia, a solidão, o tédio etc., são inerentes à existência humana e, sem elas não há realizações humanas. No pensamento existencialista, portanto, a angústia deixa de ser vista como uma patologia para ser inerente à existência, à condição humana. É ela que tira o homem do quietismo e o leva à ação, o faz mudar de atitude, seu modo de pensar, de agir etc. pela reflexão e discussão acerca dos valores existenciais que ampliam a compreensão da realidade humana. A angústia não é mais, portanto, um sentimento negativo, mas uma experiência que evidencia-se quando tem-se consciência da condição humana de seres livres e únicos. A natureza essencial do homem é a razão pela qual ele adquire consciência dos seres. O que distingue os homens de outros seres é a consciência. A angústia não tem objeto, isto é, nada que existe pode desempenhar o papel daquilo que angustia a angústia. Sendo assim, a angústia de nada pode se assegurar, nem tampouco se tranqüilizar, o que resta apenas é o ser-no-mundo do modo que se é. Quando o nada se encontra com a angústia lembra o homem de sua verdadeira condição, um ser de possibilidades responsável por suas escolhas. Para Camon (1998), a angústia existencial é um sentimento elitista e filosófico, pois, refere-se à totalidade da existência humana e não à experiência pessoal diante do perigo ou aspereza da vida, como é utilizada no senso comum. É através da angústia que o homem direciona seus atos e torna possível agir em busca de novas perspectivas à própria vida.

Angerami – Camon, VA. Psicoterapia existencial. São Paulo: Editora Pioneira, 1998.

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A adoção dos conceitos de normalidade e de adaptação implica também um conceito pré-formado da realidade

 

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Na atualidade, Pathos é conceituado como o radical que concebe doença na sua forma original, principalmente do ponto de vista psiquiátrico. No entanto, a conceituação de Pathos é bem mais abrangente, é pensado como algo inerente ao ser humano, que atravessa toda a dimensão humana. Ao adotar os conceitos de realidade como sendo o da realidade comum compartilhada, colocando como regras as noções de adaptação e normalidade, estaremos colocando tudo o que foge a norma como uma alteração da realidade com cunho pejorativo, como anormal, ou como loucura. Segundo Foucault, os modos de expressão da loucura diferem e são aceitos segundo a cultura e o período histórico, determinado em função das normas sociais. Vários personagens históricos foram caracterizados como loucos devido as suas atitudes incomuns perante a sociedade. Alguns por quererem mudar a realidade, muitas vezes social, não se tratando de alteração da realidade no sentido de loucura. A radicalidade de suas atitudes, muitas vezes desafiadoras, em busca dos objetivos considerados impossíveis pelo resto da sociedade. Imaginem Francisco de Assis, hoje considerado pelos religiosos como um santo, mas que usou de toda sua radicalidade ao sair peregrinando pelas ruas, largando a família e todo o dinheiro que tinha para se juntar aos pobres e doentes excluídos pela sociedade, com o objetivo de servir ao seu Deus. Este Francisco foi considerado um louco na época. Considerar um homem como louco somente pelo modo de se comportar é reduzir demais a psicopatologia e o homem.

A psicopatologia não pode ser vista somente com o olhar da psiquiatria, mas também como pathica, sem esquecer a perspectiva histórica da doença mental descrita por Foucault, afinal muitas vezes a pessoa se torna louca pela forma que a cultura prevê.

É certo que uma patologia não terá somente uma origem. Não devemos qualificá-la como sendo de origem endógena, pois manteríamos a idéia objetivista do ser humano, reduzindo-o biológico. Pensar que o ser humano tem uma pré-disposição em adquirir alguma psicopatologia de origem endógena, como algo somático que pode ser medicado.  Atualmente os consultórios médicos estão cheios de pessoas que foram diagnosticadas como depressivas ou ansiosas e precisam de medicação para que os hormônios responsáveis pelo bem estar dessas pessoas sejam normalizados. As psicopatologias estão, nestes casos, associadas as taxas hormonais, sem levar em conta a vida social, política, cultural destas pessoas. Assim como não podem ser apenas de origem endógena, o mesmo vale para a questão cultural e situacional que atravessa o endógeno e o cultural. É importante a dimensão orgânica e psíquica como um todo, evitando o dualismo predominante, pois mesmo o genético está associado à mundanidade. Para Binswanger a psicopatologia extrapola o puramente biológico, psicológico ou cultural. O homem precisa estar em equilíbrio com o mundo, determinado por ele como Umwelt (mundo físico e biológico), Mitwelt (mundo social, como a família e os amigos) e o Eingenwelt (mundo pessoal, corpo). A partir do equilíbrio destas três dimensões o homem poderá viver uma existência autêntica.

Os desvios da realidade que são colocados como o anormal e, muitas vezes, a expressão de doença mental, rompem com a idéia de que o homem é um ser livre, um ser-no-mundo, composto de pathos. Aqui qualificado como tudo o que diz respeito ao homem, que atravessa a dimensão humana. Paixão, sofrimento, estariam ligados a uma dis-posição que antecede o querer e o conhecer. Essa disposição torna-se muitas vezes o elemento motor, o sopro da vida de toda uma existência.

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Desenvolvimento da mídia na contemporaneidade

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O desenvolvimento da mídia se acelera a cada dia, e com a modernização está atingindo cada vez mais um publico abrangente, passando por várias classes sociais, interligando locais de difícil acesso as grandes cidades. Atualmente é cada vez mais comum as residências com mais de um aparelho de televisão, todas moderníssimas, com telas em LCD, ou projeções mais atuais. A maioria das famílias dispõem em suas casas de televisão, aparelhos de som, telefones, computadores, aparelhos celulares, internet. O mundo se comunica e as pessoas sentem necessidade de se inserir neste mundo da informação e da conectividade. A mídia possui um poder muito grande, ela diz qual a melhor escola para estudar, qual o melhor carro para comprar, a roupa que a pessoa precisa usar para estar nas tendências da moda. A mídia tem condições de construir anjos e demônios, fazer pessoas serem amadas ou odiadas, e tudo isso com um click, basta ligar a televisão. Tratam-se de meios com uma impressionante capacidade de exceder as finalidades particulares para as quais foram concebidas. Com os meios de comunicação de massa criaram-se novas formas de socialização e intensificou-se o seu papel estruturador do cotidiano e de geração de efeitos sobre os indivíduos. Acredito que repercussão social da mídia poderia contribuir positivamente para o crescimento da sociedade, do homem como ser humano, no entanto, o que vejo é uma repercussão social que atinge diretamente o sujeito de modo que interfere na maneira como ele conduz a sua vida e se socializa com as demais pessoas. Deste modo, a importância que é dada a mídia pode superar os seus valores e suas virtudes morais.  Atualmente está sendo veiculada na televisão, no horário nobre, propaganda de operadora de telefonia celular aonde o contexto é agressivo a situação do idoso. Um jovem aparentando vinte anos, em conversa com a tia, uma senhora idosa, com dificuldades de audição, não consegue compreender a linguagem moderna do jovem e é ridicularizada por isso. A idéia central da propaganda é mudança de operadora, ou seja, a mudança para o novo, desqualificando a outra operadora por ser velha. A senhora da propaganda, foi incapaz de entender isso. Além da eventual má-fé e deliberado uso perverso, há uma destrutiva espontaneidade na forma com que os meios de comunicação de massa são operados. Passamos anos assistindo propagandas de cigarros representados por homens aventureiros e saudáveis que acendiam e tragavam os seus cigarros como se o fumo trouxesse algum tipo de beneficio, charme, milhares de pessoas foram seduzidas por essa idéia. As campanhas que são feitas hoje tentam desmistificar o que foi induzido e impedir que mais pessoas se interessem pela droga que custa milhões aos cofres públicos. A mídia é bastante abrangente e como destaquei seus efeitos podem ser positivos, mas também podem ser nocivos. Infelizmente há uma manipulação do sujeito, e confusão em relação a própria identidade que atinge crianças, jovens, adultos e idosos. Estimular a interpretação daquilo que se recebe por meio da TV, do rádio, da internet, etc. definitivamente se faz relevante enquanto parte do processo de comunicação, mas requer um complemento que desperte junto ao sujeito, a importância de também se produzir mídia conscientemente. Eis o desafio que nos aguarda.

Vládia Almeida

 

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A dissecção da personalidade psíquica

Os sintomas são derivados do reprimido, são, por assim dizer, seus representantes perante o ego; mas o reprimido é território estrangeiro para o ego. A trajetória conduziu dos sintomas do inconsciente à vida dos instintos, à sexualidade. E assim a psicanálise descobriu que os seres humanos não são simplesmente criaturas sexuais, mas têm também impulsos mais nobres e mais elevados.

Os seres humanos adoecem de um conflito entre as exigências da vida instintual e a resistência que se ergue dentro deles contra a vida instintual.

O nosso próprio ego pode ser transformado em objeto, pode tratar-se como trata outros objetos, pode observar-se, educar-se, criticar-se, sabe-se lá o que pode fazer consigo mesmo. Assim o ego pode ser dividido, durante numerosas funções, pelo menos temporariamente. Depois suas partes podem juntar-se novamente.

O conteúdo dos delírios de ser observado já sugere que o observar é apenas uma preparação do julgar e do punir, e por conseguinte, deduzimos que uma outra função desta instância deve ser o que chamamos nossa consciência. Dificilmente existe em nós alguma outra coisa que tão regularmente separamos de nosso ego e a que facilmente nos opomos como nossa consciência. Sinto-me inclinado a fazer algo que me dá prazer, mas abandono pelo motivo de minha consciência não admitir. Ou me deixo persuadir por uma expectativa muito grande que a voz da minha consciência fez objeções e, após o ato, minha consciência me pune com censuras dolorosas e me faz sentir remorso pelo ato. Essa instância existente no ego, chama-se superego.

O melancólico, assim como outras pessoas, pode mostrar um grau de severidade maior ou menor consigo mesmo nos seus períodos sadios, durante um surto melancólico seu superego se torna super perverso, insulta, humilha e maltrata o pobre ego, ameaça com os mais duros castigos, recrimina-o por atos do passado mais remoto, que havia sido considerado à época, insignificantes. O superego aplica o mais rígido moral ao ego indefeso que lhe fica a mercê; representa em geral, as exigências da moralidade, e compreendemos imediatamente que nosso sentimento moral de culpa é expressão da tensão entre o ego e o superego. Após alguns meses, a crítica do superego silencia, o ego é reabilitado e novamente goza de todos os direitos do homem, até o surto seguinte. Em determinados tipos de doenças, passa-se algo do tipo ao contrário nos intervalos: O ego se sobressai, celebra um triunfo, como se o superego tivesse perdido toda a sua força, ou tivesse fundido no ego, e esse ego liberado, maníaco, se satisfazendo desinibidamente de todos os seus apetites.

As crianças de tenra idade são amorais e não possuem inibições internas contra seus impulsos que buscam prazer. O papel que mais tarde é assumido pelo superego é desempenhado, no início, por um poder externo, pela autoridade dos pais. A influência dos pais governa a criança, concedendo-lhe provas de amor e ameaçando com castigos, os quais, para a criança, são sinais de perda do amor e se farão temer por essa mesma causa. Quando a coerção externa é internalizada, e o superego assume o lugar da instância parental e observa, dirige e ameaça o ego, da mesma forma que os pais faziam com as crianças. O superego assume o poder, a função e até mesmo os métodos da instância parental, não é simplesmente seu sucessor, mas seu legítimo herdeiro. O superego parece ter sido unilateral e ficado apenas com a rigidez e severidade dos pais, com sua função proibidora e punitiva ao passo que o cuidado carinhoso deles parece não ter sido assimilado e mantido. Contrariando nossas expectativas, a experiência mostra que o superego pode adquirir essas mesmas características de severidade inflexível, mesmo tendo a criança sido educada de forma branda e afetuosa e se tenha evitado, na medida do possível, ameaças e punições.

Ao superego atribuímos-lhe as funções de auto-observação, de consciência e de manter o ideal. Daquilo que dissemos sobre sua origem, segue-se que ele pressupõe um fato biológico extremamente importante e um fato psicológico decisivo, ou seja, a prolongada dependência da criança em relação aos pais e o complexo de Édipo, ambos intimamente inter-relacionados. O superego é para nós o representante de todas as restrições morais, o advogado de um esforço tendente à perfeição, e em resumo, tudo o que podemos captar psicologicamente daquilo que é catalogado como o aspecto mais elevado da vida do homem.

Em relação ao id ele está repleto de energias instintuais, porém não possui organização, não expressa uma vontade coletiva, mas somente uma luta pela consecução da satisfação das necessidades instintuais que nele encontram expressão psíquica. As leis lógicas do pensamento não se aplicam ao id, e isto é verdadeiro, acima de tudo, quanto à lei da contradição. O id não conhece nenhum julgamento de valores: não conhece o bem, nem o mal, nem moralidade. Domina todos os seus processos o fator econômico ou, o fator quantitativo, que está intimamente vinculado ao princípio do prazer.

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Uma hipótese ampla das relações humanas

Se eu posso criar uma relação caracterizada da minha parte:

por uma autenticidade e transparência, em que eu sou meus sentimentos reais;

por uma aceitação afetuosa e apreço pela outra pessoa como um indivíduo separado;

por uma capacidade sensível de ver seu mundo e a ele como ele os vê;

Então o outro indivíduo na relação:

experienciará e compreenderá aspectos de si mesmo que havia anteriormente reprimido;

dar-se-á conta de que está se tornando mais integrado, mais apto a funcionar efetivamente;

tornar-se-á mais semelhante à pessoa que gostaria de ser; será mais autodiretivo e autoconfiante;

realizar-se-á mais enquanto pessoa, sendo mais único e auto-expressivo;

será mais compreensível, mais aceitador com relação aos outros;

estará mais apto a enfrentar os problemas da vida adequadamente e de forma mais tranquila.

Carl R. Rogers

(Trecho do livro: Tornar-se Pessoa, pág: 43 – 6 edição, 2009)

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MARTIN BUBER: O DIÁLOGO NA TEORIA E NA GESTALT – TERAPIA

Martin Buber

O modo Eu-Tu é vitalmente necessário para a realização da condição de pessoa. É uma relaçãointegrativa e afirma a pessoa em sua totalidade. É voltar-se para o outro plenamente, de corpo inteiro, uma entrega ao “entre” Buber descreve a vivencia relacional do ser humano. O Eu está para o Tu, assim como o Tu para o Eu, ou seja, num emaranhado de relações, pois no olhar do Tu o Eu se reconhece, e vice-versa. Sendo um feixe de relações, o homem tende a criar novos laços e personificar essas relações. Através do Tu o Eu se encontra, e na expressão maior de sua identidade, sem a uniformidade, o Eu encontra no Tu a própria revelação e atualização. O homem é um ser em relação, ser com o mundo.

Essencialmente, o diálogo para Buber, pode ser considerado como uma forma específica do processo de contato entre duas pessoas, por meio da qual cada pessoa realiza sua humanidade distinta mais completamente. A humanidade de uma pessoa somente se manifesta numa relação dialógica com os outros.

Em relação ao caráter genuíno, Buber não quer dizer que tudo o que ocorra tem que ser dito. Palavras ditas impulsivamente podem obscurecer o diálogo genuíno. O que tem que ocorrer é a disposição de se envolver honestamente, sem excluir o silêncio, fazer do silêncio um responder genuíno, não uma forma de se esconder. A pessoa deve assumir responsabilidade pela expressão franca daquilo que ocorre com ela no processo do diálogo

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AMOR E ÓDIO – A AMBIVALÊNCIA DA MÃE

O real do ódio é o impossível da fusão

No texto Amor e ódio – A ambivalência da Mãe, a autora nos apresenta a figura da mãe e a representação do “ódio” sentido pela mesma. As revelações em relação a dimensão imaginária, não simbólica, que o ódio pode constituir. A loucura de um gozo materno que o parto obriga a mulher a atravessar, pois quando o corpo sai do corpo o real aparece. Deste modo, dar a vida supõe um luto não apenas da criança no útero, mas também daquela que acaba de nascer. Ter um filho é justamente não mais o ter. Da impossibilidade da fusão mãe/filho, acontece um ódio imaginário que adianta-se ao amor. Da necessária desfusão, do reconhecimento num retorno ao feminino subsistirá o “ódio suficientemente bom”, simbólico. Mãe e filho têm de iniciar logo o luto de um e de outro. Para cada um, o objeto está para sempre perdido. Inicialmente, a criança não tem o objeto, ela é o objeto, e, no caso, perdido. Progressivamente a ilusão que acomete a mãe e o filho de serem um só, se perde e prepara a criança para a “capacidade de estar só”.

O outro traumatismo do nascimento: o parto.

A violência a qual é submetida as mulheres quando dão a luz uma criança pode ser a origem do ódio, que supõe-se atravessar todo o amor materno. O ódio evoluirá no registro imaginário se no fantasma materno o lugar da criança corresponder ao do objeto parcial, de posse e até mesmo do objeto real, que viria negar aquilo que foi identificado como uma perda, ou preenchimento do vazio evocado pelas mães em sofrimento. Nessa confusão, a criança permanece como um objeto real no fantasma materno. Dito de outro modo, em vez de ser revelada uma necessária perda interior, uma relação continua a ser estabelecida um amor fundado no gozo que visa, finalmente para a criança dominar aquilo de que a mãe é objeto submetido. O ódio simbólico é então aquele que possibilita a mãe elaborar, não mais a perda do real, mas a falta estrutural. Se a relação do sujeito com a mãe for a fonte da sua existência, acrescentamos que a relação mãe/filho pode ser o elemento que vem autenticar sua própria existência. Se a mãe é portadora da identidade em formação do bebê, ele pode conferir uma identidade à sua mãe como narcisante.

O fenômeno da castração é um lugar em que se apóiam a operação simbólica e humanizadora, a operação que consiste em privar a pulsão da satisfação imediata com o objeto visado pode tomar a via da sublimação, mas também do recalque neurótico, ou até mesmo a via perversa. Uma criança que para poder separar-se do corpo a corpo com a mãe, deve antes de tudo, ter estado ali para não ter que passar por uma regressão no momento em que esta operação se faz necessária.

Se a castração vem da privação ao mesmo tempo real e simbólica que atinge um objeto até então erotizado e repentino acesso proibido, a criança pode representar tal objeto para a mãe.

Castrações Maternas

Se a questão psíquica do parto é vivida apenas como perda real, privação, o ato de parir “passagem ao ato” corre o risco de nunca tornar-se “dar a luz”, isto é, momento simbólico, fonte de vitalidade para o narcisismo materno. Do ponto de vista materno, a placenta é perdida para a mãe e para o bebê, o corte umbilical está para os dois.

No desmame a criança fica privada do seio, e o seio fica privado da criança. Para a criança corresponde a separação de uma parte de si mesma que se alojava no corpo da mãe que, por sua vez, sente uma separação do objeto filho ainda investido como parte dela mesma. O benefício simbólico à criança é que assim separada do vital materno, ela possa voltar-se para outrem.

O acesso ao estado anal tem o valor de uma nova separação para a criança e parece corresponder para a mãe a um segundo desmame. Confirma o fato que para sobreviver a criança não precisa de exclusividade do seu poder materno. Na medida que a criança perde uma mãe que faz tudo, a mãe perde uma criança que precisa dela para tudo. Assim, falta a dependência materna e se humaniza o desejo numa sucessão de perdas e reencontros sobre a falta. Não se vive mais para o outro e sim, com o outro.

O ódio inscreve sua marca na dinâmica simbólico-real fazendo com que a desprivação real seja um ganho de originalidade compensatória e construtiva. A “mãe suficientemente cheia de ódio” faz laço na partilha entre a mulher e a mãe, entre a ama e a mãe. “Suficientemente” implica que o ódio seja necessário para toda separação. Para odiá-lo é preciso que antes tenhamos amado, e para separar-se é preciso que apesar desse amor, possamos odiá-lo.

Psicogênese da mãe

Suponhamos que uma criança carregada nove meses tenha se revestido dos aspectos de objeto interior essencial para o corpo da mãe. Os investimentos da mãe devem passar desse objeto interior que favorecia um certo retraimento narcísico, uma certa gratificação narcísica para um objeto exterior novo. O conceito de “desinvestimento materno” corresponde ao tempo em que o desejo da mãe, para sua satisfação, tem como objetivo um outro objeto além da criança. O que vai possibilitar a mãe emergir dessa unidade é a “castração umbilical”, e a atualidade de suas relações sexuais. Desinvestir a criança não pode ser confundido com abandono, nem como ausência do olhar, mas com um outro olhar para ela e para o que ela representa.

A primeira relação objetal com a criança funda-se num modo regressivo induzido pela preocupação materna primária, no modelo edípico no qual está enodada a primeira relação da mãe com a sua própria mãe. Do mesmo modo que a criança elabora a ausência da mãe, a mãe suportará a ausência do seu bebê, assim sendo, ninguém completou ninguém porque um pode sobreviver a ausência do outro. E se ninguém é completado, a mãe ainda precisa encontrar sexualmente o “pai” e acriança desinvestida terá que estabelecer outras relações objetais. Esse processo não ocorre sem desordens, e é por isso que deve ser “resolvido” num conflito, o Édipo propriamente dito.

Édipo

Se mãe e filho saíram ilesos dessas crises, eis aí um bebê ao qual o desenvestimento materno conferiu autonomia de funcionamento: a que autoriza a pulsão a encontrar satisfação na ausência da mãe. Mudando de objeto libidinal, a mãe retoma uma posição genital. Se ao passo da criança ser autônoma, ela continua na dependência da mãe, e a mãe na dependência dessa dependência o campo abre às manifestações psicopatológicas. A primeira relação, tanto para o menino quanto para a menina, estabeleceu-se com a mãe. A evolução dos primeiros tempos dessa relação nos convida a só considerar como edípica a articulação das pulsões arcaicas naquilo que foi sublimado com o desejo sexual genital. Ambos estão numa luta contra o terror da transgressão do interdito incesto. Trata-se do equilíbrio sempre frágil em torno da problemática da ambivalência e da separação, campos nas quais a ambivalência da criança reflete e repete para a mãe a ambivalência em relação à sua própria mãe.

Latência

Latência corresponde como um dos estágios do desenvolvimento afetivo da criança. Corresponde ao período social e de socialização representado pela escola e pelo tempo de aprendizagens para a criança. A entrada na escola assina socialmente a separação da mãe e da criança, trazendo a intervenção de um terceiro separador real ou imaginário, entre o sujeito e o objeto. Para que a escola se inscrever nessa dimensão separadora da mãe e da criança, é preciso que este papel e esta função tenham sido reservados ao “pai” simbólico, como a metáfora estruturante da linguagem e do pensamento.

As dificuldades encontradas pela criança na fase da latência, põem estar relacionadas a falha da mãe em sua função continente e libidinizante e a do pai em sua função separadora e estruturante da personalidade.

Puberdade e adolescência

Aqui, no início da adolescência, a criança tornada púbere, perseguindo sua busca do gozo esperado e jamais atingido, irá se voltar para seus pares, ou seja, aqueles que tiveram que renunciar aos gozo, que tiveram a mesma castração e a mesma falta. O Édipo pubertário convoca novamente mãe e filho a repensar suas possibilidades subjetivas de enunciação desse desejo. Como continuar sendo mãe de um filho em relação ao qual não mais se pode evitar reconhecer que é sexuado, capaz por sua vez de procriar? Cada vez mais semelhantes. A mãe, a quem a evolução pubertária do filho fragiliza inevitavelmente, deve atestar sólidas defesas narcísicas se não quiser sofrer um profundo ferimento. É preciso que haja renúncia para que tenhamos um final feliz. Se apesar de tudo a mãe continua a amar, proteger o filho, a criança pode ir, tronar-se uma mulher, ou um homem não muito carregados de remorso.

Pai

Se não é necessário que haja um homem para que haja um pai. Não poderia haver mãe sem pai. O mito freudiano funda a função paterna de Lacan como simbólica e estruturante, mesmo na ausência de qualquer pai real, e como vetor de uma lei universal na origem da separação mãe/filho. É o pai que ocupa o desejo da mãe quando esta não está presente, se ela vai é porque o filho não a preenche. O pai aqui é visto, como aquele que priva a criança de possuir a mãe só para si.

O pai se revela como função terceira que vem separar, organizar o mundo como tal, e dar a criança o sentido de realidade, em oposição àquilo que, do corpo no corpo, foi atravessado na experiência da maternidade.

Referências Bibliográficas

BENHAIM, Michèle. Amor e ódio, a ambivalência da mãe. Pág. 17 a 38. Rio de Janeiro: Companhia de Freud Editora, 2007.

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